terça-feira, agosto 01, 2006

Lorena Gaio



A vontade de fazer as entrevistas surgiu para que não limitássemos as impressões somente ao nosso olhar estrangeiro, forasteiro. A cada conversa, são muitas as descobertas, além de, em vários casos, serem muito divertidas. André, que já está aqui há mais tempo e não pára de falar com todos, foi responsável pela pauta, assim como por essa primeira tentativa. A idéia é chamar pessoas com perfis bastantes diferenciados. Um cristão, um muçulmano, um estudante, etc. A primeira entrevistada é, na verdade, uma grande amiga. Talvez não seja adequado iniciar essa proposta justamente com outra estrangeira. Afinal, mal conseguimos enxergar o que há aqui e já passaremos um outro ponto de vista externo. Contudo, acredito que seja importante conhecer um pouco do que pensam os expatriados, uma vez que, como disse anteriormente, há milhares deles no país. Uma outra questão é que o olhar europeu se mostre diferente do tupiniquim.

Além disso, Lorena tem uma história de vida muito interessante. É a única expatriada mulher que veio trabalhar na empresa. As poucas outras existentes, como eu, vieram acompanhar os maridos. Ela é italiana e viajar tem sido sua rotina nos últimos anos. Formada em Publicidade e Relações Públicas e também em Negócios e Finanças enviou seu currículo por email e está aqui há quatro meses.

A. Em quantos países você já trabalhou em sua vida?

L. Foram dez países: Filipinas, Malásia, Cuba, Inglaterra, Quênia, Gana, Egito, Romênia, Brasil e França. Além da Itália.

A. Você vê diferenças em trabalhar em países de primeiro ou de terceiro mundo?

L. Com certeza. A primeira delas é no caráter das pessoas, pois nos países mais pobres os trabalhadores não têm disciplina e escrúpulos.

A. A Nigéria é o país mais pobre em que você já viveu?

L. Não, nas Filipinas e em outros países da África já vi lugares mais pobres.

A. Qual é a sensação de viver em uma bolha?

L. É péssima. Entre todos os lugares em que já morei, é a primeira vez que tenho que viver em um sistema como esse. É muito ruim o fato de não ter liberdade para ir aos lugares que se quer ou precisa, ou para fazer as coisas que tem vontade.

A. Mas você acha esse aparato necessário ou considera um exagero?

L. Eu acho aqui realmente perigoso. A vida aqui não vale nada. Ouvimos casos de que se matam pessoas por mil Nairas (US$ 7.7).

A. O que achou do Brasil?

L. Deixei lá um pedaço do meu coração. O Brasil é o lado oposto da Nigéria. Lá as pessoas são alegres, temos liberdade e felicidade. O problema da Nigéria é que parece que o país não avança. Se você veio aqui há dez anos, vem agora e retorna daqui a vinte anos está tudo da mesma maneira. O país não se desenvolve, não aproveita a grande riqueza trazida pelo petróleo. Há muito dinheiro aqui e quando o óleo acabar haverá um grande vazio e o país não vai ter aproveitado a oportunidade de se desenvolver.

A. Quais são seus planos para o futuro?

L. Não vejo um porto fixo. Posso viver em qualquer parte do mundo. Contudo, espero encontrar também uma pessoa para que possa viver junto com ela em algum lugar específico.

A. Você sabia que seria a única mulher a trabalhar aqui? Isso lhe incomoda?

L. Não sabia, mas na maioria dos lugares em que trabalho grande parte dos funcionários é homem. Na verdade, eu prefiro trabalhar com homens e não vejo problema em ser uma das poucas mulheres.

A. Existe algum país no mundo ao qual você nunca iria?

L. Os países islâmicos, certamente. Não todos, afinal a Nigéria também tem sua porção islâmica, mas os mais radicais, como a Líbia, em que a mulher não tem nenhum respeito.

A. Falando da parte pessoal, como você se sente agora?

L. Muito contente, pois estou tendo uma experiência profissional que já buscava há muito tempo.

A. Quando você vai a um novo país, já sabe quanto tempo passará lá?

L. Sempre planejo tudo antecipadamente. Não é possível ter essa vida itinerante sem que ela seja previamente programada. Ao contrário, ficaria muito perdida. Posso ficar seis meses a mais ou um mês a menos, mas sempre tenho uma idéia do tempo que quero passar.

A. Qual a sua opinião sobre a Nigéria?

L. Eu não tenho nenhum amigo nigeriano, não confio neles. É engraçado porque eu adoro a África. Na parte da África que conheci havia pessoas mais confiáveis e amigas. Quando falei que vinha para cá, vários dos meus amigos disseram “Ok, é África, mas a Nigéria é diferente.” E eu confirmei isso. Parece que aqui há mais dinheiro e isso faz com que as pessoas não se ajudem. Aqui, se dou um prato de comida a alguém, essa pessoa não agradece, pois acha que temos obrigação de dar-lhes algo apenas pelo fato de nós sermos brancos e eles negros.

A. Mas você veio para cá contando com a possibilidade de o país não lhe oferecer nada? Digo cultura, experiências. Veio sabendo que a única coisa boa poderia ser apenas seu trabalho?

L. Claro que viajando sempre temos expectativas dos lugares que iremos conhecer. Mas aqui todas elas foram frustradas

A. Defina a Nigéria em uma palavra?

L. Perigo. Um país que não me acrescenta nada. Quando for a Itália não levarei nada daqui.

A. E o que você pensa dos expatriados que vêm à Nigéria?

L. Dos italianos, eu já tinha uma opinião ruim e ela se confirmou. Dos outros eu gosto e tenho sorte de me dar bem com todos. Mas, em todos os países a que vou, os italianos são muito arrogantes. São pessoas com baixas qualificações e que tinham pequenos postos onde viviam e aqui assumem grandes funções. Têm um caráter difícil. Os que estão lá são ótimos, os que vêm para cá, nem tanto.

6 Comments:

At 7:14 AM, Anonymous Anônimo said...

No final, vocês devem fazer entrevistas de vocês mesmos.Me parece que a experiência até agora vem carregada de trocas e afetos.Abraço
Paula

 
At 9:12 PM, Blogger Will Mesquita said...

"Com certeza. A primeira delas é no caráter das pessoas, pois nos países mais pobres os trabalhadores não têm disciplina e escrúpulos."

Esse trecho me causou um impacto muito profundo. Principalmente por, no final, ela ter criticado os italianos expatriados.

Mas de certa forma, todo ponto de vista é válido, e daqui não podemos duvidar tanto de quem está desse outro lado.

Um abração!

 
At 11:22 AM, Anonymous Anônimo said...

Fala meninos,
muito legal o blog. Vou ver se acompanho para matar saudades. Gostei principalmente das impressões iniciais que a Bethânia escreveu. Beth, você escreve muito bem. Isso aí podia dar um livro...
Boa sorte e até o meu casamento.

Amo vocês.

 
At 11:50 AM, Anonymous Anônimo said...

Poderia colocar uma foto dos entrevistados para a gente já ir formando uma oipinião com respeito à vivência de cada um deles

 
At 10:03 PM, Anonymous Anônimo said...

A idéia de inserir as entrevistas foi genial! Vocês, com o blog e agora com o acréscimo de diferentes pontos de vista, estão contribuindo para que a internet seja realmente um meio de que todos possam participar, onde todos possam gerar e publicar conteúdo, ser um meio de comunicação não apenas de massa,mas construído pela massa, Beijos

 
At 3:50 PM, Anonymous Anônimo said...

Beth


Como estás? Curtindo sua vida africana. Como Vc se sente agora ou arianodescente fna diáspora?

E Bethaninha? Se entendendo bem com a madrinha?

Bem vamos às coisas dura da vida.

1) Estamos precisando de ajuda tua. Estamos apoiando o estado Espírito Santo com a aplicação do Nível II, incluindo o inquérito domiciliar. Vc me disse que fez ajustes no banco de dadospara sua tese. Poderia mandar-nos para ser utilizado. Podes ficar tranquila que lhe daremos os créditos pela seção do banco.

2) Agora, a pergunta que não quer calar - cadê a tese e o artigo? TEnho trabalhado direto com a Beth Moreira e gostaria de ter uma boa resposta para esta boa pergunta.


Bjs

VLL


P.S. Nunca tinha entrado no blog de quem quer que seja. Gostei. Bem legal. E adorei me atualizar das novidades da vida na Nigéria.

 

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